Tempos atrás, surgiu uma grande polêmica no meio das HQs, quando o escritor Robert Kirkman (de Walking Dead) fez um apelo para que os escritores/artistas parassem de ver a Marvel e a DC como únicas formas de sobreviver fazendo Quadrinhos. Seu argumento é o de que trabalhar em editoras autorais (Dark Horse, Vertigo, Image, IDW, etc) pode sim render uma confortável fonte financeira. Essa discussão é muito ambígua, pois o sucesso comercial de Kirkman é excessão (assim como o de Todd McFarlane), já que HQs autorais sempre vendem muito pouco e viver só delas é complicado para o autor. Por outro lado, a maioria dos escritores da Marvel e DC não pararam de lançar suas HQs autorais por causa disso. O que ninguém discute muito, porém, é que tipo de diferenças artísticas há entre esses dois lados da nona arte.
Assim como no cinema há diferenças consideráveis entre o comercial e o autoral, nas HQs não é diferente. HQs comerciais são aquelas cujo material pertence à editora, e não ao autor. Ou seja, Homem-Aranha é uma marca da Marvel Comics, assim como Batman é da DC, e independente de seus roteiristas, é a editora que decide o que pode ou não acontecer com seus personagens. Uma HQ autoral é aquela cujo autor possui total liberdade artística sobre sua criação. Não há nada que uma HQ comercial tenha que uma HQ autoral não possa ter, mas há algumas coisas que HQs autorais têm e que HQs comerciais geralmente não dispõem.
Quanto a Narratividade
O problema de narratividade nas HQs comerciais (de modo geral) não se refere exatamente à história contada em um título, mas a sua relação com os outros títulos, onde falta coesão e intertextualidade.
Wolverine e o Homem-Aranha, por exemplo, participam de cerca de 5 títulos diferentes, mensalmente. Em cada um desses títulos, eles passam por diferentes conflitos, só que o que acontece em um deles não tem efeito no que acontece no outro. É como se existissem vários clones do Wolverine, e vários clones do Peter Parker, para que estejam em vários lugares ao mesmo tempo, fazendo coisas diferentes e sem relação.
Tudo isso, é claro, é uma forma de ganhar mais dinheiro, pois os grandes fãs do Wolverine comprarão (os cofres da Marvel agradecem) todas as revistas em que ele apareça, e irá lê-las uma depois da outra, e não vai ver nenhum tipo de indício de que o Wolverine do título A e o do título B sejam o mesmo personagem. Infelizmente, este não é o único caso onde a ganância atrapalha a arte nas HQs comerciais.
Criatividade: o problema do “statu quo”
Não nego o fato de que as HQs são um meio narrativo bastante criativo, onde histórias criativas são tratadas com tanta importância quanto histórias bem contadas. No entanto, essa criatividade sempre se refere às histórias em si, e nunca chega a afetar realmente o “statu quo”, a identidade estática do universo e dos personagens. HQs comerciais praticamente nunca se reinventam, e a auto-reinvenção é o mais importante tipo de criatividade.
Mudanças de grande proporções são temidas porque, nos negócios, a frase “em time que está ganhando não se mexe” é um lema. Essa frase, porém, pode ser reescrita como “time que não se mexe se desgasta e perde a graça”. Pelo menos na visão dos mais exigentes.
Na Marvel por exemplo, nem mesmo o uniforme dos personagens mudam. Quando um personagem importante morre, ele é sempre ressucitado. Quando acontece algum grande evento, como Guerra Civil ou Invasão Secreta, não demora muito para que tudo volte ao normal, aos “padrões”, ao statu quo.
Quando Grant Morrison passou a escrever New X-Men (vide foto), e mudou bastante a natureza da dinâmica de grupo, tornando-os menos super-heróicos (menos musculosos e bonitões, inclusive) e mais sombrios, não demorou para que a Marvel escolhesse um autor que trouxesse tudo de volta ao status quo. Esse autor foi Joss Whedon, que todos sabem é meu maior ídolo, mas cuja temporada em Astonishing X-Men, apesar de ter sido mais eficiente narrativamente do que a de Morrison, contribuiu para tornar o “status quo” ainda mais forte e imorredouro (com direito à volta dos uniformes coloridos e colantes).
Quanto à Profundidade
Bem, assim como na TV e no cinema comerciais, e como Matrix, Buffy e Lost já provaram, nada impede que você seja ao mesmo tempo comercial e profundo, que tenha temáticas abstratas e comentários intelectuais.
Os arcos Gifted e Torn, de Astonishing X-Men (de Joss Whedon), são prova de que um bestseller pode explorar temáticas mais substanciais. Se isso é raro de encontrar nas HQs comerciais, bem, aí já não tem nada a ver com o fato dela ser comercial.
Características, não defeitos
Alguns também dizem que o fato das HQs comerciais serem quase atemporais é um defeito, mas não acredito que seja. Peter Parker, por exemplo, envelheceu cerca de 5 anos no decorrer de quase 50 anos de histórias, mas não vejo qual seja o problema disso. O tempo demora pra passar, mas não é estagnado. Peter Parker envelheceu, assim como Barbara Gordon (Batgirl), Dick Grayson (Asa Noturna), Kitty Pryde, Homem-de-Gelo, etc. Nada disso impede que os personagens sejam maravilhosamente bem construídos e realistas.
O fato do título durar por centenas de edições também não significa nada. Obviamente, em 500 edições, por exemplo, é impossível que não se tenha épocas ruins, histórias mal escritas e/ou mal aceitas, mas isso não é culpa da quantidade de edições; é culpa dos escritores responsáveis.
Outra coisa também ás vezes apontada como um defeito das HQs comerciais é o sistema onde o escritor é um empregado temporário. Já foi falado aqui que as editoras comerciais não gostam de grandes mudanças. Isso é prerrogativa delas, pois os personagens e o universo as pertencem. Os roteiristas e desenhistas são sempre contratados e sua liberdade é restrita no que se refere ao statu quo. Por exemplo, você pode fazer o Batman passar por todo tipo de situação maluca, mas a identidade do personagem, e a identidade do título, nunca podem mudar a não ser que a editora queira. Não há nada de ruim com o sistema em si. Não é diferente de um seriado que possui vários roteiristas, todos subordinados às escolhas, boas ou ruins, dos criadores/showrunners da série.
Finalizando…
Nada do que eu disse tem a intenção de menosprezar as HQs comerciais, pois não são raros exemplos de HQs comerciais que alcançaram um nível alto o suficiente de narratividade, criatividade e profundidade, a ponto de nos fazer “perdoar” o irritante conservadorismo criativo, e a frequente falta de coesão entre diferentes títulos.
Para isso, basta ter artistas talentos. Felizmente, as editoras também pensam assim, e por isso mesmo estão sempre dispostas a chamar grandes escritores renomados para suas HQs (Neil Gaiman, Grant Morrison, Frank Miller, Warren Ellis, Joss Whedon, Brian Meltzer, Stephen King, etc). Esse sim é o tipo de estratégia que, espero eu, a Marvel e a DC nunca deixem de adotar.




























