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HQs e adaptações (Parte II)

08/12/2008


HQs viram filmes desde que o mundo é mundo, e mesmo quando não era moda, coisas muito boas saíram disso. MIB, O Máscara, Ghost World, Blade, o primeiro Superman (dou meu braço a torcer apesar de não gostar do Homem de Aço), os Batmans de Tim Burton, etc. E também muitas porcarias, como Aço, o filmeco da Liga da Justiça, o Fantasma, Flash, o também filmeco da Geração X, e claro, as duas maiores tragédias, os Batmans de Joel Schumacher.

Quando o nerd Bryan Singer resolveu levar os X-Men pra telona, tudo mudou. O filme arrasou e conseguiu não deixar a peruca intragável da Halle Berry estragar a festa. A partir daí, BOOM, Hollywood grudou no mundo das HQs como sanguessugas e veja só, 8 anos depois e a coisa tá cada vez mais forte.

Eu particularmente era um purista com relação a adaptações. Eu acreditava na singularidade de uma obra. Pra mim, uma obra em HQ foi feita nesse meio porque era o certo. O mesmo para livros, filmes, etc. Ou seja, não me parecia “certo” pegar uma história em HQ e transformar em filme, é como você tirar um filho da casa dele e coloca-lo em outro lugar que não lhe pertence. Por um tempo eu tive essas reservas com relação a adaptações, mas como eu sempre faço, constantemente, diariamente, eu pensei mais e mais e revi esse conceito.

Há nas adaptações (hoje em dia, pelo menos) um claro senso de oportunismo dos executivos de cinema, mas há também uma vontade de exploração. Não exploração do tipo chicote, mas do tipo de buscar novos meios de contar aquela história, de expressar suas “mensagens” por outros ângulos. Hoje eu faço um paralelo entre adaptações e a arte de contar histórias oralmente. A arte narrativa é maior do que a obra em si, pois uma vez pronta e finalizada, ela deixa de ser propriedade do autor para se tornar propriedade de todos aqueles que a internalizam. Assim como na narativa oral, todos que têm a história perto do peito conquistaram o direito de recontá-la repetidamente, para que o máximo de pessoas também possam internaliza-la.

Minha teoria definitiva (até agora) a respeito disso é que a adaptação, apesar do senso de oportunismo comercial que algumas demonstram, é simplesmente a atitude de um roteirista e/ou um diretor recontarem, do jeito que sabem, uma história que amam. Bryan Singer ama os X-Men. Sam Raimi ama o Homem-Aranha. Jon Favreau ama o Homem-de-Ferro, assim como Guillermo Del Toro ama Hellboy. Todos eles quiseram recontar suas amadas histórias para que outras pessoas possam conhece-las. Ás vezes a história original é melhor, mas ás vezes ela fica melhor “na boca” de outro. Tudo isso é positivo. Tem gente que não gosta de ler HQs e que hoje conheçe o quão fodão é o Hellboy. Assim como tem gente que, de tanto gostar das adaptações, vai atrás de ver a história original e acaba virando mais um leitor da 9a arte.

Existe o material original e existem adaptações, mas já que a arte pertence a todos que a amarem, não existe isso de a história oficial, ou a história falsa, ou a história menos “real” e importante. O meio (HQs, cinema, tv, etc) em que uma história é recontada não tem nada a ver com sua qualidade, com o quão bem sucedido será o resultado. Por exemplo: O Guia do Mochileiro das Galáxias era uma grande série de rádio. O próprio autor a transformou numa magnífica série literária, o que caracteriza uma adaptação como qualquer outra, e uma que superou a original arrebatadoramente. A partir disso, a saga virou uma série de TV fraquíssima, um recente filme que é bom mas não está à altura, e também uma minissérie em HQs pela DC Comics que chega muito, mas muito perto de ser tão bom quanto a obra literária.

Pra alguns, independente da qualidade final, uma obra, por exemplo, no cinema sempre vai causar maior efeito do que em um livro ou HQ. Para outros não é bem assim. Eu, por exemplo, escolhi a 9a arte como minha arte por motivos que vou expressar no futuro, porém como expectador, fã, eu não vou escolher a versão em HQs logo de cara, arbitrariamente, apesar de amar esse meio acima dos outros. Se a adaptação de cinema for melhor contada, e tiver um maior efeito em mim, será esta a versão que abraçarei. É o caso de Homem-Aranha 1, Homem-de-Ferro, Hulk 1, Batman Begins, Blade, ou seja, filmes que adaptam a origem dos personagens. Por mais criativos que tenha sido seus criadores originais, esses heróis ganharam uma gênese muito melhor, mais rica e excitante nas mãos dos roteiristas e diretores.

Tudo isso é subjetivo e o que expressei aqui foi minha teoria pessoal. Uma coisa que me inspirou foi ler a declaração de Neil Gaiman (AQUI) de que apóia totalmente as adaptações de suas HQs, mas que a única coisa que espera, e que exige, é que a pessoa a recontar suas histórias seja alguém que as ame e as respeite. Do mesmo modo, me inspirou saber que Mike Mignola reconhece e respeita que, por mais que tenha sido consultado na produção dos filmes, o Hellboy da telona é o Hellboy de Guillermo Del Toro.

Infelizmente, amar a obra original não é garantia de sucesso.  Zack Snyder não se limitou a transformar 300, de Frank Miller, em um video-clipe pop super estiloso. Agora ele quer mexer em Watchmen, uma obra que é simplesmente inadaptável, mesmo se fosse pelas mãos de um gênio (o que não é o caso). Bem, esperemos.

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