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BUFFY!!

14/01/2009

Buffy é uma coisa extremamente difícil de se falar, pois são coisas demais que merecem atenção. Mas como é a maior paixão que a arte já pôde me dar, e como o blog está num festival de posts vampirescos, resolvi escrever, sem muita profundidade, algumas das coisas que fazem Buffy ser tão maravilhosa. O texto é, ao mesmo tempo, um simplório testemunho de um grande fã, e uma recomendação àqueles que nunca viram a série.

Buffy & eu

Me considerar um “fã” de Buffy é eufemismo demais, como já deve ter dado pra perceber. Fã é conhecido como aquele que acompanha, que adora. Buffy pra mim é bem mais do que isso.

Conheci a série em 2000, e já virei fã, no sentido comum da palavra. Colecionava revistas, esperei ansioso pela estréia de Angel na Fox e ia atrás de ver todos os filmes da Sarah M. Gellar, mas era só. Não passava de um adorado hobby. Em meados de 2004, ao descobrir o recém-lançado livro Buffy e a Filosofia, alguma coisa me chocou. Um livro de filosofia sobre Buffy? Mas como assim? Confesso que não era um adolescente muito brilhante na época, e meu conhecimento filosófico era tão profundo quanto meu conhecimento de engenharia atômica. Mas o que realmente me intrigou é que eu não via como uma série que eu via há anos podia esconder coisas como aquelas descritas no livro. Mas na época eu também nunca parava pra realmente interpretar nada que eu via/assistia, era bem alienado.

Bem, eu comecei a ler o livro, nas poltronas da livraria, porque não podia comprar. Li de cabo a rabo, e comecei a ver a série com olhos totalmente diferentes. Não sei dizer exatamente em que ponto isso aconteceu, mas esse processo de conhecer Buffy por um ponto de vista racional teve efeitos imensos em mim. Pra começar, eu fiquei absurdamente fascinado com a série, com suas temáticas filosóficas e contundentes. Procurei na internet e vi que há uma enorme comunidade de “Buffy Studies”, acadêmicos que estudam a série (o mais importante site de ensaios é o Slayage). Passei a estudar a série, e com ela eu passei a ponderar sobre o que é o bem, o mal, o que significa família, feminismo, as implicações éticas do poder, da responsabilidade, do sacrifício, da fé, da violência, etc. Esse fascínio racional me levou a um envolvimento emocional muito mais profundo com os personagens, com o universo no geral, do que eu já tinha. A partir daí, Buffy se tornou, obviamente, a maior paixão da minha vida na arte. Consequentemente, ler a filosofia de Buffy me fez ficar fascinado também com a filosofia em geral. Passei a estudar os filósofos, e a filosofar sobre mim mesmo e tudo à minha volta. Embarcar na filosofia, primeiramente de Buffy e então dos grandes pensadores, foi “a” grande epifania da minha vida, um divisor de águas, uma libertação racional e existencial (mais tarde, existencialista).

Porém, as mudanças não pararam aí. Buffy não só era uma imensa paixão e objeto de fascínio racional, e não só me apresentou pra atividade mais importante que um ser humano pode exercer, como também me fez ver todo meu futuro: contador de histórias. Ver o quão profundo uma obra narrativa pode ser, o quanto ela pode inspirar um amor profundo e o quanto ela pode te fazer pensar, podendo mudar vidas radicalmente, me fez ver que ser um “storyteller” é a melhor coisa que eu posso fazer com a minha vida, com Joss Whedon como inspiração máxima. Com o tempo, minhas áreas de interesse mudaram. Depois de ver que o cinema e a literatura não são exatamente o que eu preciso como narrador, achei um lar perfeito nas Histórias em Quadrinhos, onde histórias excitantes, imaginativas e profundas como Buffy são mais comuns do que nos outros lugares.

Uma visão geral

Buffy A Caça-Vampiros conta a história de Buffy Summers, uma adolescente que descobriu ser a mais nova da linhagem das Caça-Vampiros, mulheres que, desde o início dos tempos vêm combatendo vampiros, demônios e outros monstros. Contra sua vontade, Buffy aceita seu fardo, mas não sozinha: seus amigos, tendo descoberto seu segredo, unem-se para ajudá-la, formando a auto-denominada Scooby Gang.

A série teve 5 temporadas exibidas no canal WB, e mais 2 temporads pela rede UPN. A audiência nunca foi grande, por se tratar de algo excêntrico demais se comparado aos campeões de audiência. Em compensação, Buffy tinha mais elogios da crítica do que a maioria das outras séries, e tinha um dos grupos de fãs mais devotados e apaixonados de todos os tempos, sendo eleita pela TV Guide a 3a série mais cult já feita, atrás somente de Star Trek e Arquivo X.

Anos após o fim da série, Joss Whedon deu continudade a história nos Quadrinhos, onde narrativas épicas de fantasia como Buffy se sentem deliciosamente “em casa”.

Anti-preconceitos

Joss Whedon tem uma maravilhosa mania de ser imprevisível, de ir por caminhos não trilhados. Quando criou Buffy, por exemplo, ele queria um filme de terror onde a líder de torcida, que geralmente é perseguida e morta, fosse a grande heroína. O título, “Buffy a Caça Vampiros”, traz uma excentricidade paradoxal, onde um nome como Buffy (nos EUA é um nome fresco como Pati ou Kelly) não combina com a função de Caça Vampiros, a Escolhida para combater as forças sombrias e proteger a humanidade.

Ao desenvolver a série, Whedon ousou bem mais em sua imprevisibilidade. Ele criou um universo baseado eminentemente na estética de filmes B, aqueles filmes de terror, de monstros, mal feitos, de baixo orçamento e que divertem mas não assustam. Muitos desses nem sequer pretendiam assustar, assim como em Buffy os seus monstros, vampiros e demônios são desenvolvidos como algo a enfrentar, a caçar, e não a temer. São ameaçadores, sim, mas não fisicamente assustadores. A grande surpresa imprevisível, no entanto, é pegar um gênero sempre tomado como algo totalmente descartável e ineficiente, e transformar-lo em algo extremamente aclamado pela crítica e público, uma história profunda, complexa, humanamente realista e genialmente bem conduzida.

Já é bem nítido que um dos grandes objetivos de Whedon foi apresentar um protesto contra o preconceito. Ele fez uma série de Terror B ser mais elogiada do que a maioria das séries de médicos, advogados e policiais que já existiram. Ele fez uma líder de torcida ser uma heroína mais marcante do que muitos machões de Hollywood. Ele fez um nome aparentemente ridículo como “Buffy a Caça Vampiros” ser o título de uma obra-prima, estudada por centenas de acadêmicos americanos e europeus, e que muitos críticos já compararam a Shakespeare.

Nuances interpretativas

Existem milhares de fãs de Buffy que, antes da série, não se viam apaixonados por terror B, monstros exagerados nada assustadores. Porém, tem MUITO mais a oferecer do que a excelente fantasia gótica.

Buffy pode ser dividida entre a interpretação literal e a alegórica. A literal se refere ao que se vê, ou seja, é uma série de fantasia escapista mas com personagens realistas e complexos. Porém, basta olhar a série com um pouco mais de compromisso para ver o lado alegórico, onde a fantasia e os monstros quase sempre são metáforas, ás vezes como exageramento do conflito psicológico dos personagens (uma menina que se sente isolada e esnobada, torna-se literalmente invisível), ou ás vezes como representação de temas mais abstratos, filosóficos (um determinado culto religioso atrai as pessoas para depois aprisioná-las, escravizá-las e aliená-las).

A série como um todo, no nível literal, é baseada no Mito do Herói (de Joseph Campbell), mas ao mesmo tempo usa o Mito como alegoria para representar a dura jornada do amadurecimento, onde os conflitos tipicamente adolescentes, e mais tarde pós-adolescentes, tornam-se realmente monstruosos, e precisam ser enfrentados.

As nuances são tantas que a série pode ser apreciada em diferentes níveis. Seja no escapista, no psicológico e/ou no filosófico, a eficiência narrativa é extrema.

Gêneros e ousadias

Buffy sempre foi reconhecida não só como uma das mais bem escritas séries da História, mas também como uma das mais ousadas, o que torna tudo mais surpreendente. Já foi dito neste texto o quanto Whedon gosta de quebrar preconceitos, mas isso é só o começo de sua ousadia criativa.

Buffy é uma tragicomédia de ação, aventura, suspense (não terror) e romance, que se reinventa a cada temporada e nunca se inibe de experimentar as idéias mais ousadas e estéticas inesperadas. Por exemplo, a série já teve um episódio totalmente sem diálogos, já teve um episódio totalmente musical, um outro que se passa no plano onírico, outro totalmente sem música, outro que mostra que Buffy pode ser na verdade uma doente mental que imaginou ser a Caçadora, entre outros exemplos.

Outros recomendam

Muitas pessoas não consideram a opinião de críticos como mais valiosa do que a de um leigo. E realmente não devem, pois arte não é matemática, não existe regras, e a opinião “profundamente analítica” de um crítico sobre o que torna A melhor que B, é tão válida quanto a opinião genérica de um leigo sobre o que ele acha ser melhor. No entanto, se eu estou aqui dando uma sugestão, expor outras opiniões favoráveis ajuda, seja de quem for.

Buffy nunca foi muito lembrada nas premiações mais famosas, essas consideradas “sérias” demais pra indicar uma série de Horror B de uma emissora pequena que não se define entre drama ou comédia. Buffy e The Wire (que curiosamente tem tudo aquilo que as premiações gostam) são geralmente considerados as duas séries extremamente consagradas pela crítica que os grandes prêmios sempre esnobam. Como forma de reconhecer e compensar todos os anos de injustiça contra Buffy, o Television Critics Awards honrou a série com o Heritage Award, um prêmio de “conjunto de obra” e sua relevância cultural. Por outro lado, a maioria dos críticos especializados nunca esconderam sua admiração pela série: eleita uma das 50 melhores programas de TV dos últimos 50 anos (TV Guide), é a 10a melhor série dos últimos 25 anos (Entertainment Weekly), é a segunda melhor série de todos os tempos (Empire), um dos 100 melhores seriados de todos os tempos (Time), “o” melhor seriado de todos os tempos (UGO), entre incontáveis outras honrarias.

Outras pessoas que vêm reforçar minha recomendação talvez façam mais efeito do que as minhas palavras, ou a dos críticos: as palavras de outros artistas. São fãs confessos de Buffy: Brian K. Vaughan (autor de Y The Last Man, Runaways), Amy Sherman-Paladino (a criadora de Gilmore Girls), Bryan Fuller (criador de Pushing Daisies), Neil Gaiman (autor de Sandman, Stardust), Russell T. Davis (criador da nova versão de Dr.Who), JJ Abrams (criador de Alias), Damon Lindelof (criadores de Lost), Shonda Rhimes (criadora de Grey’s Anatomy), Hart Hanson (criador de Bones), Greg Daniels (criador do The Office americano), Carter Bays & Craig Thomas (criadores de How I Met your Mother), Eric Kripke (criador de Supernatural), Tara Butters e Michelle Fazekas (criadoras de Reaper), assim como outras lendas vivas dos Quadrinhos como Chris Claremont, Warren Ellis, Grant Morrison, Mark Millar, Jeph Loeb, John Byrne, etc.

Como série em Quadrinhos (8a temporada, em andamento), Buffy pôde finalmente ser reconhecida nas grandes premiações, sendo indicada, ano passado, a 5 prêmios Eisner (o mais importante da indústria), inclusive Melhor Roteirista, Melhor Série Contínua e Melhor Nova Série (que ganhou).

Recado final

Se você teve interesse suficiente de ler esse texto irritantemente longo (e inevitavelmente vago) até aqui, você deve fazer um favor a si mesmo e conferir os episódios de Buffy a Caça Vampiros. Não se iluda com a qualidade mediana dos episódios da 1a temproada e da metade da 2a. Logo após esses, a série passa a mostrar sua verdadeira genialidade. Gosto pessoal e senso crítico não se discutem, mas caso você chegue a admirar/gostar/adorar/amar a série, já deixo dito: Bem-vindo. =)

Um comentário

  1. Ei! Como vc faz um blog e não me avisa!? :( Hehe

    Não achei o seu texto vago, está ideal para quem não conhece a série ter uma idéia de como é.
    Prometo que aindo assisto^^. É um interesse sincero.
    Bjos
    ;)



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