Já fiz um post a respeito de como eu vejo a coisa da “crítica”, seus critérios e sua lógica. Resumidamente, eu dizia que considerar algo é bom/ruim, melhor/pior, no sentido de qualidade, depende somente de sua narratividade. Por exemplo, uma narrativa extremamente bem escrita/executada sobre um simples triângulo amoroso é “melhor” que uma narrativa que mistura filosofia oriental e teorias Freudianas, mas que tenha seus defeitos na narrativa. A questão é que eu estava equivocado, e “qualidade” abrange outros fatores.
Não sou o único que tinha essa idéia de “qualidade”. Não é á toa, por exemplo, que a revista TV Guide elegeu Seinfeld, uma série sobre nada, como a melhor já feita, acima de séries mais profundas e intelectuais e criativas como The Sopranos, Buffy, Simpsons, Six Feet Under, etc.
Mas andei pensando ainda mais no assunto (pra variar), e cheguei na conclusão que qualidade não deve se basear somente em narratividade. De acordo com essa minha nova e melhor idéia de “qualidade”, uma narrativa deve ser julgada em três critérios principais de igual importância:
- NARRATIVIDADE: Ou seja, o quão bem a história é pensada, idealizada, e então contada (executada), de acordo com seus objetivos, independente de quais sejam. Vide o exemplo da narrativa do triângulo amoroso…
- CRIATIVIDADE: Seja na história em si, seja em sua abordagem. Deve ser usada como critério de julgamento porque é a criatividade, o ímpeto de proporcionar novos modelos, que não deixa a arte se estagnar e não permite que uma ou outra fórmula seja sempre repetida, eternamente. Se a arte consegue se manter fresca, excitante e surpreendente, é por causa da criatividade. O que é criatividade, afinal? Novos modos de desenvolver uma idéia, hibridismo de gêneros, pensar o que os outros não pensaram, entre outras coisas. De forma geral, Einstein explica que “o segredo da criatividade é saber como esconder as fontes”.
- PROFUNDIDADE: Infelizmente, assim como muitos storytellers só se importam com a narratividade e não procuram a criatividade, muitos também só enxergam a arte como meio de puro escapismo (algo bom e maravilhoso e que nos faz bem, emocionalmente, mas o assunto em pauta é julgamento crítico, e nesse sentido o fator diversão é dispensável), e não vêem seu potencial como veículo de espelho do mundo e do ser humano. Uma narrativa é profunda quando explora a mente de seus personagens em nível mais interno, exibindo suas complexidades, a ponto de poder ser considerado um modelo realista da psiquê humana. Não é suficiente moldar um personagem com uma personalidade bem construída, mas dar a ele uma psiquê realista, e explora-la. Algumas, ainda, escolhem outros meios para refletir o mundo real, ao explorar temáticas abstratas, de cunho filosófico ou científico. Na minha opinião, profundidade é indispensável pois refletir a vida real é a maneira que a arte tem de mudar o mundo e as pessoas, pois inspira a auto-reflexão.
Deixo claro que não é pecado não ter todos os três fatores, e que a maestria em pelo menos um deles já é suficiente para tornar a obra marcante. Se tiver dois deles, é provável que se torne um clássico. Se alcançada a maestria em todos os três, bem, aí com certeza você estará diante de algo genuinamente genial.
Daqui pra frente, todo julgamento crítico que eu fizer de alguma obra narrativa servirá esses três critérios, na mesma proporção, pois são igualmente importantes.
Essa é minha teoria definitiva, até eu encontrar outra melhor. Comentários são bem-vindos ^^






