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Como Julgar a Narrativa

19/01/2009

Já fiz um post a respeito de como eu vejo a coisa da “crítica”, seus critérios e sua lógica. Resumidamente, eu dizia que considerar algo é bom/ruim, melhor/pior, no sentido de qualidade, depende somente de sua narratividade. Por exemplo, uma narrativa extremamente bem escrita/executada sobre um simples triângulo amoroso é “melhor” que uma narrativa que mistura filosofia oriental e teorias Freudianas, mas que tenha seus defeitos na narrativa. A questão é que eu estava equivocado, e “qualidade” abrange outros fatores.

Não sou o único que tinha essa idéia de “qualidade”. Não é á toa, por exemplo, que a revista TV Guide elegeu Seinfeld, uma série sobre nada, como a melhor já feita, acima de séries mais profundas e intelectuais e criativas como The Sopranos, Buffy, Simpsons, Six Feet Under, etc.

Mas andei pensando ainda mais no assunto (pra variar), e cheguei na conclusão que qualidade não deve se basear somente em narratividade. De acordo com essa minha nova e melhor idéia de “qualidade”, uma narrativa deve ser julgada em três critérios principais de igual importância:

- NARRATIVIDADE: Ou seja, o quão bem a história é pensada, idealizada, e então contada (executada), de acordo com seus objetivos, independente de quais sejam. Vide o exemplo da narrativa do triângulo amoroso…

- CRIATIVIDADE: Seja na história em si, seja em sua abordagem. Deve ser usada como critério de julgamento porque é a criatividade, o ímpeto de proporcionar novos modelos, que não deixa a arte se estagnar e não permite que uma ou outra fórmula seja sempre repetida, eternamente. Se a arte consegue se manter fresca, excitante e surpreendente, é por causa da criatividade. O que é criatividade, afinal? Novos modos de desenvolver uma idéia, hibridismo de gêneros, pensar o que os outros não pensaram, entre outras coisas. De forma geral, Einstein explica que “o segredo da criatividade é saber como esconder as fontes”.

- PROFUNDIDADE: Infelizmente, assim como muitos storytellers só se importam com a narratividade e não procuram a criatividade, muitos também só enxergam a arte como meio de puro escapismo (algo bom e maravilhoso e que nos faz bem, emocionalmente, mas o assunto em pauta é julgamento crítico, e nesse sentido o fator diversão é dispensável), e não vêem seu potencial como veículo de espelho do mundo e do ser humano. Uma narrativa é profunda quando explora a mente de seus personagens em nível mais interno, exibindo suas complexidades, a ponto de poder ser considerado um modelo realista da psiquê humana. Não é suficiente moldar um personagem com uma personalidade bem construída, mas dar a ele uma psiquê realista, e explora-la. Algumas, ainda, escolhem outros meios para refletir o mundo real, ao explorar temáticas abstratas, de cunho filosófico ou científico. Na minha opinião, profundidade é indispensável pois refletir a vida real é a maneira que a arte tem de mudar o mundo e as pessoas, pois inspira a auto-reflexão.

Deixo claro que não é pecado não ter todos os três fatores, e que a maestria em pelo menos um deles já é suficiente para tornar a obra marcante. Se tiver dois deles, é provável que se torne um clássico. Se alcançada a maestria em todos os três, bem, aí com certeza você estará diante de algo genuinamente genial.

Daqui pra frente, todo julgamento crítico que eu fizer de alguma obra narrativa servirá esses três critérios, na mesma proporção, pois são igualmente importantes.

Essa é minha teoria definitiva, até eu encontrar outra melhor. Comentários são bem-vindos ^^

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Twilight

22/12/2008

Twilight (nome com uma sonoridade muito mais bonita que Crepúsculo) se tornou um daqueles fenômenos literários instantâneos, coisa que não se via desde Harry Potter. Nada errado com isso, claro. As pessoas deviam ficar felizes de ver que o interesse da juventude pela leitura não acabou junto com a saga de Potter.

Antes de continuar, esclareço que eu ainda não li a obra de Stephenie Meyer, e tudo o que eu disser aqui se refere à interpretação cinematográfica da história, recentemente em cartaz.

Bem, ouvi falar de Twilight devido aos paralelos entre a obra e Buffy a Caça Vampiros, “a” minha grande paixão na arte. No início, me soou um simples plágio: garota se apaixonada por vampiro bonzinho atormentado. Pelo que li, superficialmente, a história se limitava à isso, logo não consegui ter um interesse, pois pra mim seria impossível que alguém consiguisse fazer um romance entre um vampiro e uma mortal tão bem quanto Joss Whedon fez em Buffy.

Na maioria das entrevistas que dá, Stephenie Meyer, autora da saga, é questionada sobre uma possível influência de Buffy. Praticamente todos os artigos e resenhas sobre a obra citam a série da Caçadora. Até mesmo os seus fãs duvidavam que essa influência não existisse. A autora, no entanto, sempre declarou nunca ter assistido à série, e se houve alguma influência, ela foi indireta. É impossível, portanto, determinar se existiria Twilight em um mundo onde Buffy e Angel não existissem. De qualquer forma, Twilight conseque não soar como uma reprise, pois as diferenças (nos personagens, na mitologia, nas intenções, na estética) são muito expressivas, e é isso que realmente importa (segundo Einstein, originalidade é a arte de esconder suas fontes), pois permite a obra ter uma identidade própria. Afinal, assim como podem existir várias narrativas, completamente diferentes, que falam sobre invasão alienígena, podem existir aquelas sobre romance vampiresco. É o caso também da recente série da HBO, True Blood, que fala sobre uma moça do interior que se apaixona por um vampiro, e consegue ter uma identidade distinta da de Buffy ou de Twilight.

Ao contrário do que eu imaginava, Twilight não se limita ao conflito romântico. Possui uma mitologia própria sobre o mundo dos vampiros, tem aspectos de suspense, ação e aventura (mas, assim como Buffy e True Blood, não tem intenção de assustar) com algumas similaridades às convenções clássicas (mortos-vivos, bebedores de sangue, imortais) mas muitos aspectos originais, como o fato deles não serem mortos por estacas e poderem sim andar sob o sol sem pegarem fogo. Bem-vinda originalidade.

Infelizmente, esse fator fantasia é extremamente menosprezado e tratado com ineficiência. No entanto, o foco primário da obra, o romance em si, teve mais sucesso. Os dois personagens foram suficientemente bem explorados, a tensão de “amor proibido” existia e a quimíca entre eles, e entre eles e o público (no caso, eu), deu certo. Nada disso de forma majestosa nem ao menos excelente, mas o suficiente para me fazer investir no casal.

Bem, eu estava certo em achar que a relação entre Bella e Edward não conseguiria ser tão realista, complexa, angustiada e trágica quanto a de Buffy e Angel, até pela diferença na qualidade dos personagens, mas pensar assim é não perceber um aspecto óbvio: Twilight é só o primeiro de uma saga, e talvez o jovem casal acabe, com o tempo, se tornando personagens complexos e realistas, protagonizando uma história de amor tão épica, intensa e Shakesperiana quanto a do casal predecessor.

Eu gostei dos personagens, dos conflitos, do universo, e acho que uma grande história pode germinar disso tudo. Apesar de ter gostado, criticamente eu não posso deixar de considerar as monumentais falhas do filme. Espero que, com o desenvolvimento da saga, não só o romance se torne mais profundo e bem explorado, mas que também a mitologia de fantasia seja melhor aproveitada.

Próximo passo: ler as obras literárias, na esperança de que Twilight tenha sido mais feliz no papel do que na película.

EFICIÊNCIA GERAL: ** (de *****)