h1

HQs Autorais Vs. Comerciais

11/02/2009

Tempos atrás, surgiu uma grande polêmica no meio das HQs, quando o escritor Robert Kirkman (de Walking Dead) fez um apelo para que os escritores/artistas parassem de ver a Marvel e a DC como únicas formas de sobreviver fazendo Quadrinhos. Seu argumento é o de que trabalhar em editoras autorais (Dark Horse, Vertigo, Image, IDW, etc) pode sim render uma confortável fonte financeira. Essa discussão é muito ambígua, pois o sucesso comercial de Kirkman é excessão (assim como o de Todd McFarlane), já que HQs autorais sempre vendem muito pouco e viver só delas é complicado para o autor. Por outro lado, a maioria dos escritores da Marvel e DC não pararam de lançar suas HQs autorais por causa disso. O que ninguém discute muito, porém, é que tipo de diferenças artísticas há entre esses dois lados da nona arte.

Assim como no cinema há diferenças consideráveis entre o comercial e o autoral, nas HQs não é diferente. HQs comerciais são aquelas cujo material pertence à editora, e não ao autor. Ou seja, Homem-Aranha é uma marca da Marvel Comics, assim como Batman é da DC, e independente de seus roteiristas, é a editora que decide o que pode ou não acontecer com seus personagens. Uma HQ autoral é aquela cujo autor possui total liberdade artística sobre sua criação. Não há nada que uma HQ comercial tenha que uma HQ autoral não possa ter, mas há algumas coisas que HQs autorais têm e que HQs comerciais geralmente não dispõem.

Quanto a Narratividade

O problema de narratividade nas HQs comerciais (de modo geral) não se refere exatamente à história contada em um título, mas a sua relação com os outros títulos, onde falta coesão e intertextualidade.

Wolverine e o Homem-Aranha, por exemplo, participam de cerca de 5 títulos diferentes, mensalmente. Em cada um desses títulos, eles passam por diferentes conflitos, só que o que acontece em um deles não tem efeito no que acontece no outro. É como se existissem vários clones do Wolverine, e vários clones do Peter Parker, para que estejam em vários lugares ao mesmo tempo, fazendo coisas diferentes e sem relação.

Tudo isso, é claro, é uma forma de ganhar mais dinheiro, pois os grandes fãs do Wolverine comprarão (os cofres da Marvel agradecem) todas as revistas em que ele apareça, e irá lê-las uma depois da outra, e não vai ver nenhum tipo de indício de que o Wolverine do título A e o do título B sejam o mesmo personagem. Infelizmente, este não é o único caso onde a ganância atrapalha a arte nas HQs comerciais.

Criatividade: o problema do “statu quo”

Não nego o fato de que as HQs são um meio narrativo bastante criativo, onde histórias criativas são tratadas com tanta importância quanto histórias bem contadas. No entanto, essa criatividade sempre se refere às histórias em si, e nunca chega a afetar realmente o “statu quo”, a identidade estática do universo e dos personagens. HQs comerciais praticamente nunca se reinventam, e a auto-reinvenção é o mais importante tipo de criatividade.

Mudanças de grande proporções são temidas porque, nos negócios, a frase “em time que está ganhando não se mexe” é um lema. Essa frase, porém, pode ser reescrita como “time que não se mexe se desgasta e perde a graça”. Pelo menos na visão dos mais exigentes.

Na Marvel por exemplo, nem mesmo o uniforme dos personagens mudam. Quando um personagem importante morre, ele é sempre ressucitado. Quando acontece algum grande evento, como Guerra Civil ou Invasão Secreta, não demora muito para que tudo volte ao normal, aos “padrões”, ao statu quo.

Quando Grant Morrison passou a escrever New X-Men (vide foto), e mudou bastante a natureza da dinâmica de grupo, tornando-os menos super-heróicos (menos musculosos e bonitões, inclusive) e mais sombrios, não demorou para que a Marvel escolhesse um autor que trouxesse tudo de volta ao status quo. Esse autor foi Joss Whedon, que todos sabem é meu maior ídolo, mas cuja temporada em Astonishing X-Men, apesar de ter sido mais eficiente narrativamente do que a de Morrison, contribuiu para tornar o “status quo” ainda mais forte e imorredouro (com direito à volta dos uniformes coloridos e colantes).

Quanto à Profundidade

Bem, assim como na TV e no cinema comerciais, e como Matrix, Buffy e Lost já provaram, nada impede que você seja ao mesmo tempo comercial e  profundo, que tenha temáticas abstratas e comentários intelectuais.

Os arcos Gifted e Torn, de Astonishing X-Men (de Joss Whedon), são prova de que um bestseller pode explorar temáticas mais substanciais. Se isso é raro de encontrar nas HQs comerciais, bem, aí já não tem nada a ver com o fato dela ser comercial.

Características, não defeitos

Alguns também dizem que o fato das HQs comerciais serem quase atemporais é um defeito, mas não acredito que seja. Peter Parker, por exemplo, envelheceu cerca de 5 anos no decorrer de quase 50 anos de histórias, mas não vejo qual seja o problema disso. O tempo demora pra passar, mas não é estagnado. Peter Parker envelheceu, assim como Barbara Gordon (Batgirl), Dick Grayson (Asa Noturna), Kitty Pryde, Homem-de-Gelo, etc. Nada disso impede que os personagens sejam maravilhosamente bem construídos e realistas.

O fato do título durar por centenas de edições também não significa nada. Obviamente, em 500 edições, por exemplo, é impossível que não se tenha épocas ruins, histórias mal escritas e/ou mal aceitas, mas isso não é culpa da quantidade de edições; é culpa dos escritores responsáveis.

Outra coisa também ás vezes apontada como um defeito das HQs comerciais é o sistema onde o escritor é um empregado temporário. Já foi falado aqui que as editoras comerciais não gostam de grandes mudanças. Isso é prerrogativa delas, pois os personagens e o universo as pertencem. Os roteiristas e desenhistas são sempre contratados e sua liberdade é restrita no que se refere ao statu quo. Por exemplo, você pode fazer o Batman passar por todo tipo de situação maluca, mas a identidade do personagem, e a identidade do título, nunca podem mudar a não ser que a editora queira. Não há nada de ruim com o sistema em si. Não é diferente de um seriado que possui vários roteiristas, todos subordinados às escolhas, boas ou ruins, dos criadores/showrunners da série.

Finalizando…

Nada do que eu disse tem a intenção de menosprezar as HQs comerciais, pois não são raros exemplos de HQs comerciais que alcançaram um nível alto o suficiente de narratividade, criatividade e profundidade, a ponto de nos fazer “perdoar” o irritante conservadorismo criativo, e a frequente falta de coesão entre diferentes títulos.

Para isso, basta ter artistas talentos. Felizmente, as editoras também pensam assim, e por isso mesmo estão sempre dispostas a chamar grandes escritores renomados para suas HQs (Neil Gaiman, Grant Morrison, Frank Miller, Warren Ellis, Joss Whedon, Brian Meltzer, Stephen King, etc). Esse sim é o tipo de estratégia que, espero eu, a Marvel e a DC nunca deixem de adotar.

h1

Criticando BUFFY (Parte I)

30/01/2009

Bem, resolvi fazer um post crítico sobre as temporadas de Buffy a Caça Vampiros, expondo o que eu considero bem e mal sucedido nelas. Nada muito aprofundado, somente comentários críticos mesmo, dando o exemplo de que gostar e admirar são coisas diferentes. Buffy é a obra de arte que mais amo, mas não é por isso que vou desconsiderar seus defeitos e ser parcial nos meus julgamentos. E também não é por ela ter alguns defeitos que ela vai deixar de ser uma das melhores séries que já existiram.😉

Obs.: As notas são para a temporada com um todo, como se cada ano fosse um livro (como Harry Potter, por exemplo), e não uma média da qualidade individual dos episódios. Para ver meus critérios de julgamento, ver post Como Julgar a Narrativa.

Obs2: “Arco” é a expressão técnica para uma história desenvolvida no decorrer de vários episódios, que tenha começo, meio e fim. Podem existir arcos tanto de caráter externo (conflitos de ação, fantasia, aventura, derrotar um vilão), como de caráter humano (conflitos internos dos personagens), ou que seja as duas coisas ao mesmo tempo.

TEMPORADA 1


O primeiro ano de Buffy, apesar de ser visto com bastante simpatia e nostalgia por quem já experimentou as verdadeiras qualidades da série, é também um desafio de paciência pra os novatos. Com exceção dos excelentes “Angel” e “Prophecy Girl”, os episódios dessa temporada oscilam entre péssimos e fracos em narratividade e profundidade, apesar de extremamente criativos. Com excessão de Buffy, os personagens aqui não parecem passar de estereótipos, superficiais. São fracos, como quase tudo o mais nessa temporada. A estrutura já é a estrutura que a série sempre adotará: arco de fantasia envolvendo um grande inimigo (no caso, o divertido Mestre), permeado por episódios independentes do arco. Apesar de todos os defeitos, como falei, é impossível pra um Buffymaníaco não ver essa temporada com saudosismo, pois apesar de ser infantilesca a la Gossebumps, possui uma leveza que a série nunca mais voltou a ter.

A melhor narrativa: “Prophecy Girl”
O mais criativo: “Nightmares”
O mais profundo: “Prophecy Girl”
Meu favorito: “Prophecy Girl”, quando a leveza vai pro espaço e tudo passa a ser mortalmente sério.

TEMPORADA 2


A segunda temporada é extremamente consagrada e elogiada, mas é irregular, tanto no sentido individual como no todo. Individualmente porque a primeira metade da temporada tem alguns episódios fraquíssimos, mas no geral a qualidade é imensamente maior com relação ao primeiro ano. O fator fantasia a série melhorou, com episódios mais sombrios, maduros, violentos e desafiadores. Como um todo, porém, o arco que se forma (as ameaças de Spike e Drusilla) não consegue inspirar um grande desafio.

No entanto, no clássico episódio duplo Surprise/Innocence, Spike e Drusilla ganham um novo aliado, e o arco da temporada finalmente deixa de ser fraco para ser absolutamente espetacular. Pode-se dizer, inclusive, que é nesse episódio que a série toda realmente começa, pois Innocence não só é um primor de narratividade, é também um primor de criatividade e profundidade, e é a primeira vez que a série alcança tais níveis. Além disso, é considerada por muitos a melhor metáfora que a série já teve. A reviravolta que ocorre nesse (único) arco da temporada é de tamanho brilhantismo que a gente acaba se esquecendo dos vários episódios realmente esquecíveis que houveram aqui, e no fato de que o arco era fraco até agora. Enquanto isso, os personagens secundários começam a se desenvolver, a ganhar substância e se sentirem mais seguros como combatentes do mal. No entanto, é Buffy e Angel que brilham aqui.

A melhor narrativa: “Becoming pt2”
O mais criativo: “Innocence”
O mais profundo: “Becoming pt2”
Meu favorito: “Becoming pt 2”, onde a tragédia poética alcança seu ápice.

TEMPORADA 3

Todos os defeitos da temporada anterior foram “consertados”, enquanto as qualidades permaneceram. Individualmente falando, todos os episódios dessa temporadas são ou excelentes ou primorosos. Talvez um ou outro não chegue a esses níveis, mas no geral, a qualidade surpreende. Como um todo, a temporada é pura maestria, com uma estrutura perfeita e extremamente coesa, e uma impecável integração entre todos os arcos.

Dessa vez há vários arcos paralelos sendo desenvolvidos. O arco do Big Bad (aventura, fantasia, que se refere ao grande vilão) é a ascenção demoníaca do prefeito Wilkins. Os outros arcos são de caráter humano (diferente do que vinha sendo feito, onde os conflitos humanos eram parte do arco de fantasia): um deles se refere a chegada de Faith e como isso afeta o grupo; outro arco é o de Buffy e Angel e a tentativa de um novo relacionamento; e outro arco é a atração entre Xander e Willow, quando ambos estão comprometidos.

Bem, todos os arcos são desenvolvidos com brilhantismo, com excessão do de Xander/Willow, que simplesmente não soa realista e é, infelizmente, irritante. Esse, porém, não chega a ser um problema que comprometa a genialidade da temporada. Além de ser uma narrativa extremamente bem feita, ainda estão presentes a criativividade e profundidade extremas, formando uma temporada que, para mim, é a melhor temporada de qualquer seriado de qualquer época.

A melhor narrativa: “Graduation Day pt1/pt2”
O mais criativo: “The Zeppo”
O mais profundo: “Consequences”
Meu favorito: “Helpless”, onde Buffy mostra a verdadeira fonte do poder.

h1

Dr. Horrible, uma nova era

26/01/2009

Essa é uma coisa que nunca me cansarei de recomendar. Dr. Horrible, eleita uma das 15 melhores invenções do ano pela revista Time, é exatamente isso: uma obra que ajudou a mudar o modo de fazer TV. Primeiro, porque é “TV online” (o termo técnico, na verdade, é cyber TV), independente, sem o orçamento (e consequente sem as restrições criativas) das emissoras. A TV é a única mídia narrativa que, até hoje, não possuía uma corrente independente. Até mesmo as séries da HBO, Showtime, FX, Sci-Fi, mesmo com toda sua extrema liberdade criativa, e sem a intenção de almejar um grande público, ainda são parte da indústria. Ainda são produzidas por empresas que vêem “audiência” como fator determinante.

Não é de hoje que a internet se tornou um refúgio para seriados que não cabiam na indústria da TV. O primeiro grande e famoso exemplo é The Guild, uma série escrita/atuada por Felicia Day (episódio piloto logo abaixo), atriz que já participou de Buffy, House, Monk, e uma genuinamente promissora escritora. Seus roteiros são tão bons, criativos e divertidos que conseguiu até a ganhar a admiração de Joss Whedon, um autor de TV cujas idéias incomuns e ousadas sempre sofriam para sobreviver nas mãos das emissoras. Angel foi cancelada em seu auge, e Firefly não teve nem a chance de uma temporada completa. Buffy foi a excessão, pois apesar de ser criativo, ousado e não atrair às massas, era o seriado mais popular e consagrado pela crítica que a emissora (WB, hoje extinta) possuía.

Foi quando a greve dos roteiristas começou, no começo de 2008, que Whedon teve a genial idéia de embarcar na ainda pouco conhecida e pouco respeitada “TV independente” da internet. Seria a primeira vez que um profissional desse porte considerava essa nova mídia, e o resultado surpreendeu até mesmo os mais otimistas (onde me incluo). Eu já conheço, há muito tempo, o quão absurdamente genial Whedon pode ser em seu melhor, mas mesmo assim Dr. Horrible’s Sing-Along Blog me deixou nada menos que chocado. Chocado pela história em si, chocado pela extrema qualidade, em todos os sentidos: a minissérie alcançou o nível das coisas mais bem escritas, mais criativas e com maior insight de personagens que Whedon já fez, uma deliciosa e impactante tragicomédia com diálogos brilhantes e melodias “grudentas”, no melhor estilo do episódio musical de Buffy, Once More with Feeling (que, por pouco, não perde o posto de melhor musical televisivo já feito).

Por já ser antiga conhecida de Whedon e por The Guild ter sido uma das inspirações de Dr. Horrible, Felicia Day foi chamada para protagonizar a série, junto ao nunca decepcionante Nathan Fillion e o magnífico Neil Patrick Harris, cuja interpretação genial tornou-o o mais novo ator queridinho do “Whedonverse”, para os fãs.

DH foi exibido em Julho de 2008 em seu site oficial, recebendo cerca de 2 mil acessos por segundo em sua primeira noite. Após a exibição no site, a série ficou disponível para download em iTunes, e ficou várias semanas como seriado mais baixado, e até sua trilha sonora, ainda disponível só em mp3, entrou na lista da Billboard. O sucesso com a crítica, então, foi unânime.

Por todos esses motivos, Whedon foi informalmente nomeado o “guru” dessa nova mídia, pois apesar dele não ter sido o primeiro a aproveitar seu potencial artístico (The Guild, como mencionei, não é tão brilhante quanto Dr. Horrible mas é tão boa quanto as melhores séries cômicas papa-Emmy que têm por aí), foi o primeiro a provar que a internet pode ser um excelente e digno “refúgio criativo” para profissionais já renomados, e não somente para iniciantes. Provou aos patrocinadores que investir em seriados online é lucrativo. Provou à crítica e ao público que, se a internet pôde render algo que simplesmente humilha 99% dos seriados em exibição nas emissoras, não é coerente ter reservas quanto às possibilidades artísticas da nova mídia.

Dr Horrible está disponível para exibição no site Hulu (como o site não aceita acesso fora dos EUA, é necessária a instalação do programa Hotspot Shield).

Dr. Horrible’s Sing-Along Blog

Narratividade: Não há nada aqui que eu escreveria diferente. Seja os diálogos, os personagens ou a estrutura, tudo é impecável.
Criatividade: Uma tragicomédia musical de internet revertendo os clichês do gênero de super-heróicos. Precisa falar mais?
Profundidade: O gênero tragicomédia já implica em conflito emocionais intensos, mas DH ainda é um musical, o gênero que não funciona a não ser que penetre profundamente na mente de seus personagens.

(sobre meus critérios de julgamento, ver “Como Julgar a Narrativa”)

h1

Y: The Last Man

22/01/2009

Y the Last Man é uma das poucas obras narrativas que já meu deram vontade de chorar de emoção simplesmente pelo fato de ter pedido apreciá-las. É uma obra que prova que Histórias em Quadrinhos são uma forma de arte legítima de alto nível que vai muito além de entretenimento de super-heróis (se é que existe alguém que ainda duvide disso). É uma obra excepcional em todos os sentidos.

Tudo se deve ao talento raro de Brian K. Vaughan, autor de outras obras primas como Ex-Machina e Runaways, e um dos raros storytellers que eu considero genuinamente geniais, por alcançarem um altíssimo nível de excelência nos três níveis de julgamento narrativo: ele não se prende a clichês e convenções, tem personagens complexos e temáticas bastante politizadas, e é um mestre em contar uma história da melhor forma possível, seja ela uma pretensiosa obra como Y the Last Man, ou um maravilhoso escapismo como Runaways.

Y the Last Man conta a história de Yorick Brown, o único sobrevivente de uma suposta epidemia que matou todos os seres com o cromossomo Y da face da Terra. Histórias do tipo não são novidadena literatura sci-fi, mas não é exatamente nesse conceito geral que Y mostra sua excelência criativa, mas sim na condução da história, nos conflitos, nas reviravoltas, e obviamente, no final surpreendente. Além disso, é extremamente difícil apontar alguma falha na eficiência narrativa. Todos os arcos, do começo ao fim, são extremamente bem escritos, com diálogos fantásticos tanto dramatica quanto cômicamente, maravilhosas referências àcultura popular, e personagens interessantíssimos.

Além disso tudo, a qualidade geral de Y the Last Man também é enriquecida pela imensa carga intelectual. Não só Vaughan explora profundamente as complexidades da psiquê de seus personagens, até mesmo dos coadjuvantes, como ele também utiliza suas tramas para tecer, regularmente, pungentes comentários políticos e sociais. Digo com segurança que esta série é a maior narrativa feminista já feita, pois ao longo da jornada de Yorick em busca de respostas, nos é exposto qual foi o papel do homem na condução da humanidade, pro bem e pro mal, com grande ênfase em seus históricos, e muitas vezes desumanos, pecados machistas e misogenistas.

A arte da série é feita pela brilhante Pia Guerra, dona de um traço muito inspirado na “old school”, com linhas grossas e limpas, de extrema expressividade e fantástica composição de cena. Muitos de seus quadros, cheios de impacto e dramaticidade, não sairão tão cedo da memória, principalmente o quadro final, o desfecho mais visualmente poético que já tive o privilégio de presenciar. Um final brilhante para uma série constantemente brilhante, que mantém a supremacia da Vertigo como a maior produtora de grandes obras-primas (é da Vertigo também “a” melhor série em HQs de todos os tempos, Sandman, além de outros clássicos como Preacher, Os Invisíveis, 100 Balas, Fábulas e Hellblazer).

Y está prestes a virar filme, mas esse é o tipo de adaptação fadada ao fracasso, pois se você tentar tirar todas as edições que não são extremamente relevantes para a história e sua mensagem, você ainda terá dezenas de edições indispensáveis. Por conta disso, Y provavelmente será dividido em uma trilogia, no mínimo. Meu amigo Marcelo, estudante de cinema, ao terminar de ler Y, finalmente se rendeu ao poder narrativo das HQs, admitindo que esse é o tipo de história que simplesmente não cabe na película sem que seja mutilada, simplificada, enfim, desprovida de sua genialidade. Esse, inclusive, é exatamente a razão pela qual eu escolhi os Quadrinhos como veículo para minhas narrativas. E Y certamente é o tipo de história que prova que há, nas HQs, tanta genialidade narrativa quanto na literatura, no cinema ou no teatro.

Y é periodicamente publicada pela editora Pixel no Brasil, geralmente na revista Pixel Magazine.

Y THE LAST MAN

Narratividade: Sem palavras =)
Criatividade: O conceito não é novo, mas o desenvolvimento dele nunca soa clichê ou convencional. As reviravoltas, o desenvolvimento dos personagens e principalmente o desfecho final dificilmente soam previsíveis.
Profundidade: Personagens complexos, realisticamente construídos; contundente temática política e social.

(sobre meus critérios de julgamento, ver “Como Julgar a Narrativa”)

h1

Como Julgar a Narrativa

19/01/2009

Já fiz um post a respeito de como eu vejo a coisa da “crítica”, seus critérios e sua lógica. Resumidamente, eu dizia que considerar algo é bom/ruim, melhor/pior, no sentido de qualidade, depende somente de sua narratividade. Por exemplo, uma narrativa extremamente bem escrita/executada sobre um simples triângulo amoroso é “melhor” que uma narrativa que mistura filosofia oriental e teorias Freudianas, mas que tenha seus defeitos na narrativa. A questão é que eu estava equivocado, e “qualidade” abrange outros fatores.

Não sou o único que tinha essa idéia de “qualidade”. Não é á toa, por exemplo, que a revista TV Guide elegeu Seinfeld, uma série sobre nada, como a melhor já feita, acima de séries mais profundas e intelectuais e criativas como The Sopranos, Buffy, Simpsons, Six Feet Under, etc.

Mas andei pensando ainda mais no assunto (pra variar), e cheguei na conclusão que qualidade não deve se basear somente em narratividade. De acordo com essa minha nova e melhor idéia de “qualidade”, uma narrativa deve ser julgada em três critérios principais de igual importância:

– NARRATIVIDADE: Ou seja, o quão bem a história é pensada, idealizada, e então contada (executada), de acordo com seus objetivos, independente de quais sejam. Vide o exemplo da narrativa do triângulo amoroso…

– CRIATIVIDADE: Seja na história em si, seja em sua abordagem. Deve ser usada como critério de julgamento porque é a criatividade, o ímpeto de proporcionar novos modelos, que não deixa a arte se estagnar e não permite que uma ou outra fórmula seja sempre repetida, eternamente. Se a arte consegue se manter fresca, excitante e surpreendente, é por causa da criatividade. O que é criatividade, afinal? Novos modos de desenvolver uma idéia, hibridismo de gêneros, pensar o que os outros não pensaram, entre outras coisas. De forma geral, Einstein explica que “o segredo da criatividade é saber como esconder as fontes”.

– PROFUNDIDADE: Infelizmente, assim como muitos storytellers só se importam com a narratividade e não procuram a criatividade, muitos também só enxergam a arte como meio de puro escapismo (algo bom e maravilhoso e que nos faz bem, emocionalmente, mas o assunto em pauta é julgamento crítico, e nesse sentido o fator diversão é dispensável), e não vêem seu potencial como veículo de espelho do mundo e do ser humano. Uma narrativa é profunda quando explora a mente de seus personagens em nível mais interno, exibindo suas complexidades, a ponto de poder ser considerado um modelo realista da psiquê humana. Não é suficiente moldar um personagem com uma personalidade bem construída, mas dar a ele uma psiquê realista, e explora-la. Algumas, ainda, escolhem outros meios para refletir o mundo real, ao explorar temáticas abstratas, de cunho filosófico ou científico. Na minha opinião, profundidade é indispensável pois refletir a vida real é a maneira que a arte tem de mudar o mundo e as pessoas, pois inspira a auto-reflexão.

Deixo claro que não é pecado não ter todos os três fatores, e que a maestria em pelo menos um deles já é suficiente para tornar a obra marcante. Se tiver dois deles, é provável que se torne um clássico. Se alcançada a maestria em todos os três, bem, aí com certeza você estará diante de algo genuinamente genial.

Daqui pra frente, todo julgamento crítico que eu fizer de alguma obra narrativa servirá esses três critérios, na mesma proporção, pois são igualmente importantes.

Essa é minha teoria definitiva, até eu encontrar outra melhor. Comentários são bem-vindos ^^

h1

BUFFY!!

14/01/2009

Buffy é uma coisa extremamente difícil de se falar, pois são coisas demais que merecem atenção. Mas como é a maior paixão que a arte já pôde me dar, e como o blog está num festival de posts vampirescos, resolvi escrever, sem muita profundidade, algumas das coisas que fazem Buffy ser tão maravilhosa. O texto é, ao mesmo tempo, um simplório testemunho de um grande fã, e uma recomendação àqueles que nunca viram a série.

Buffy & eu

Me considerar um “fã” de Buffy é eufemismo demais, como já deve ter dado pra perceber. Fã é conhecido como aquele que acompanha, que adora. Buffy pra mim é bem mais do que isso.

Conheci a série em 2000, e já virei fã, no sentido comum da palavra. Colecionava revistas, esperei ansioso pela estréia de Angel na Fox e ia atrás de ver todos os filmes da Sarah M. Gellar, mas era só. Não passava de um adorado hobby. Em meados de 2004, ao descobrir o recém-lançado livro Buffy e a Filosofia, alguma coisa me chocou. Um livro de filosofia sobre Buffy? Mas como assim? Confesso que não era um adolescente muito brilhante na época, e meu conhecimento filosófico era tão profundo quanto meu conhecimento de engenharia atômica. Mas o que realmente me intrigou é que eu não via como uma série que eu via há anos podia esconder coisas como aquelas descritas no livro. Mas na época eu também nunca parava pra realmente interpretar nada que eu via/assistia, era bem alienado.

Bem, eu comecei a ler o livro, nas poltronas da livraria, porque não podia comprar. Li de cabo a rabo, e comecei a ver a série com olhos totalmente diferentes. Não sei dizer exatamente em que ponto isso aconteceu, mas esse processo de conhecer Buffy por um ponto de vista racional teve efeitos imensos em mim. Pra começar, eu fiquei absurdamente fascinado com a série, com suas temáticas filosóficas e contundentes. Procurei na internet e vi que há uma enorme comunidade de “Buffy Studies”, acadêmicos que estudam a série (o mais importante site de ensaios é o Slayage). Passei a estudar a série, e com ela eu passei a ponderar sobre o que é o bem, o mal, o que significa família, feminismo, as implicações éticas do poder, da responsabilidade, do sacrifício, da fé, da violência, etc. Esse fascínio racional me levou a um envolvimento emocional muito mais profundo com os personagens, com o universo no geral, do que eu já tinha. A partir daí, Buffy se tornou, obviamente, a maior paixão da minha vida na arte. Consequentemente, ler a filosofia de Buffy me fez ficar fascinado também com a filosofia em geral. Passei a estudar os filósofos, e a filosofar sobre mim mesmo e tudo à minha volta. Embarcar na filosofia, primeiramente de Buffy e então dos grandes pensadores, foi “a” grande epifania da minha vida, um divisor de águas, uma libertação racional e existencial (mais tarde, existencialista).

Porém, as mudanças não pararam aí. Buffy não só era uma imensa paixão e objeto de fascínio racional, e não só me apresentou pra atividade mais importante que um ser humano pode exercer, como também me fez ver todo meu futuro: contador de histórias. Ver o quão profundo uma obra narrativa pode ser, o quanto ela pode inspirar um amor profundo e o quanto ela pode te fazer pensar, podendo mudar vidas radicalmente, me fez ver que ser um “storyteller” é a melhor coisa que eu posso fazer com a minha vida, com Joss Whedon como inspiração máxima. Com o tempo, minhas áreas de interesse mudaram. Depois de ver que o cinema e a literatura não são exatamente o que eu preciso como narrador, achei um lar perfeito nas Histórias em Quadrinhos, onde histórias excitantes, imaginativas e profundas como Buffy são mais comuns do que nos outros lugares.

Uma visão geral

Buffy A Caça-Vampiros conta a história de Buffy Summers, uma adolescente que descobriu ser a mais nova da linhagem das Caça-Vampiros, mulheres que, desde o início dos tempos vêm combatendo vampiros, demônios e outros monstros. Contra sua vontade, Buffy aceita seu fardo, mas não sozinha: seus amigos, tendo descoberto seu segredo, unem-se para ajudá-la, formando a auto-denominada Scooby Gang.

A série teve 5 temporadas exibidas no canal WB, e mais 2 temporads pela rede UPN. A audiência nunca foi grande, por se tratar de algo excêntrico demais se comparado aos campeões de audiência. Em compensação, Buffy tinha mais elogios da crítica do que a maioria das outras séries, e tinha um dos grupos de fãs mais devotados e apaixonados de todos os tempos, sendo eleita pela TV Guide a 3a série mais cult já feita, atrás somente de Star Trek e Arquivo X.

Anos após o fim da série, Joss Whedon deu continudade a história nos Quadrinhos, onde narrativas épicas de fantasia como Buffy se sentem deliciosamente “em casa”.

Anti-preconceitos

Joss Whedon tem uma maravilhosa mania de ser imprevisível, de ir por caminhos não trilhados. Quando criou Buffy, por exemplo, ele queria um filme de terror onde a líder de torcida, que geralmente é perseguida e morta, fosse a grande heroína. O título, “Buffy a Caça Vampiros”, traz uma excentricidade paradoxal, onde um nome como Buffy (nos EUA é um nome fresco como Pati ou Kelly) não combina com a função de Caça Vampiros, a Escolhida para combater as forças sombrias e proteger a humanidade.

Ao desenvolver a série, Whedon ousou bem mais em sua imprevisibilidade. Ele criou um universo baseado eminentemente na estética de filmes B, aqueles filmes de terror, de monstros, mal feitos, de baixo orçamento e que divertem mas não assustam. Muitos desses nem sequer pretendiam assustar, assim como em Buffy os seus monstros, vampiros e demônios são desenvolvidos como algo a enfrentar, a caçar, e não a temer. São ameaçadores, sim, mas não fisicamente assustadores. A grande surpresa imprevisível, no entanto, é pegar um gênero sempre tomado como algo totalmente descartável e ineficiente, e transformar-lo em algo extremamente aclamado pela crítica e público, uma história profunda, complexa, humanamente realista e genialmente bem conduzida.

Já é bem nítido que um dos grandes objetivos de Whedon foi apresentar um protesto contra o preconceito. Ele fez uma série de Terror B ser mais elogiada do que a maioria das séries de médicos, advogados e policiais que já existiram. Ele fez uma líder de torcida ser uma heroína mais marcante do que muitos machões de Hollywood. Ele fez um nome aparentemente ridículo como “Buffy a Caça Vampiros” ser o título de uma obra-prima, estudada por centenas de acadêmicos americanos e europeus, e que muitos críticos já compararam a Shakespeare.

Nuances interpretativas

Existem milhares de fãs de Buffy que, antes da série, não se viam apaixonados por terror B, monstros exagerados nada assustadores. Porém, tem MUITO mais a oferecer do que a excelente fantasia gótica.

Buffy pode ser dividida entre a interpretação literal e a alegórica. A literal se refere ao que se vê, ou seja, é uma série de fantasia escapista mas com personagens realistas e complexos. Porém, basta olhar a série com um pouco mais de compromisso para ver o lado alegórico, onde a fantasia e os monstros quase sempre são metáforas, ás vezes como exageramento do conflito psicológico dos personagens (uma menina que se sente isolada e esnobada, torna-se literalmente invisível), ou ás vezes como representação de temas mais abstratos, filosóficos (um determinado culto religioso atrai as pessoas para depois aprisioná-las, escravizá-las e aliená-las).

A série como um todo, no nível literal, é baseada no Mito do Herói (de Joseph Campbell), mas ao mesmo tempo usa o Mito como alegoria para representar a dura jornada do amadurecimento, onde os conflitos tipicamente adolescentes, e mais tarde pós-adolescentes, tornam-se realmente monstruosos, e precisam ser enfrentados.

As nuances são tantas que a série pode ser apreciada em diferentes níveis. Seja no escapista, no psicológico e/ou no filosófico, a eficiência narrativa é extrema.

Gêneros e ousadias

Buffy sempre foi reconhecida não só como uma das mais bem escritas séries da História, mas também como uma das mais ousadas, o que torna tudo mais surpreendente. Já foi dito neste texto o quanto Whedon gosta de quebrar preconceitos, mas isso é só o começo de sua ousadia criativa.

Buffy é uma tragicomédia de ação, aventura, suspense (não terror) e romance, que se reinventa a cada temporada e nunca se inibe de experimentar as idéias mais ousadas e estéticas inesperadas. Por exemplo, a série já teve um episódio totalmente sem diálogos, já teve um episódio totalmente musical, um outro que se passa no plano onírico, outro totalmente sem música, outro que mostra que Buffy pode ser na verdade uma doente mental que imaginou ser a Caçadora, entre outros exemplos.

Outros recomendam

Muitas pessoas não consideram a opinião de críticos como mais valiosa do que a de um leigo. E realmente não devem, pois arte não é matemática, não existe regras, e a opinião “profundamente analítica” de um crítico sobre o que torna A melhor que B, é tão válida quanto a opinião genérica de um leigo sobre o que ele acha ser melhor. No entanto, se eu estou aqui dando uma sugestão, expor outras opiniões favoráveis ajuda, seja de quem for.

Buffy nunca foi muito lembrada nas premiações mais famosas, essas consideradas “sérias” demais pra indicar uma série de Horror B de uma emissora pequena que não se define entre drama ou comédia. Buffy e The Wire (que curiosamente tem tudo aquilo que as premiações gostam) são geralmente considerados as duas séries extremamente consagradas pela crítica que os grandes prêmios sempre esnobam. Como forma de reconhecer e compensar todos os anos de injustiça contra Buffy, o Television Critics Awards honrou a série com o Heritage Award, um prêmio de “conjunto de obra” e sua relevância cultural. Por outro lado, a maioria dos críticos especializados nunca esconderam sua admiração pela série: eleita uma das 50 melhores programas de TV dos últimos 50 anos (TV Guide), é a 10a melhor série dos últimos 25 anos (Entertainment Weekly), é a segunda melhor série de todos os tempos (Empire), um dos 100 melhores seriados de todos os tempos (Time), “o” melhor seriado de todos os tempos (UGO), entre incontáveis outras honrarias.

Outras pessoas que vêm reforçar minha recomendação talvez façam mais efeito do que as minhas palavras, ou a dos críticos: as palavras de outros artistas. São fãs confessos de Buffy: Brian K. Vaughan (autor de Y The Last Man, Runaways), Amy Sherman-Paladino (a criadora de Gilmore Girls), Bryan Fuller (criador de Pushing Daisies), Neil Gaiman (autor de Sandman, Stardust), Russell T. Davis (criador da nova versão de Dr.Who), JJ Abrams (criador de Alias), Damon Lindelof (criadores de Lost), Shonda Rhimes (criadora de Grey’s Anatomy), Hart Hanson (criador de Bones), Greg Daniels (criador do The Office americano), Carter Bays & Craig Thomas (criadores de How I Met your Mother), Eric Kripke (criador de Supernatural), Tara Butters e Michelle Fazekas (criadoras de Reaper), assim como outras lendas vivas dos Quadrinhos como Chris Claremont, Warren Ellis, Grant Morrison, Mark Millar, Jeph Loeb, John Byrne, etc.

Como série em Quadrinhos (8a temporada, em andamento), Buffy pôde finalmente ser reconhecida nas grandes premiações, sendo indicada, ano passado, a 5 prêmios Eisner (o mais importante da indústria), inclusive Melhor Roteirista, Melhor Série Contínua e Melhor Nova Série (que ganhou).

Recado final

Se você teve interesse suficiente de ler esse texto irritantemente longo (e inevitavelmente vago) até aqui, você deve fazer um favor a si mesmo e conferir os episódios de Buffy a Caça Vampiros. Não se iluda com a qualidade mediana dos episódios da 1a temproada e da metade da 2a. Logo após esses, a série passa a mostrar sua verdadeira genialidade. Gosto pessoal e senso crítico não se discutem, mas caso você chegue a admirar/gostar/adorar/amar a série, já deixo dito: Bem-vindo. =)

h1

TRUE BLOOD E a volta da glória vampiresca na TV.

08/01/2009

Há um bom tempo atrás, quando ouvi a notícia da futura existência de True Blood, mal me contive de excitação e ansiedade. Já era alucinado por fantasia gótica, vampiros, e sabia que o ponto de vista de Alan Ball para o gênero seria, no mínimo, inusitado. Eu não estava errado.

Sou um apaixonado pelas narrativas de Ball. Beleza Americana tinha uma genialidade doentia e visceral, enquanto Six Feet Under trouxe um humor negro intimista, enraizado no complexo âmbito psicológico famíliar, e disposto a filosofar sobre temas mais abstratos como morte, vida, o que ambas querem dizer, e o que uma significa para a outra.

True Blood é algo bem diferente das outras obas do gênero. Sim, o foco principal é o romance entre uma mocinha mortal e um vampiro “bonzinho”, coisa que Buffy já havia feito com extremo brilhantismo dez anos antes, e que a série literária Twilight havia recentemente abordado. Felizmente, as três obras não possuem nada além deste único fator em comum. Eu tenho verdadeira alergia a plágios, e garanto que, para mim, True Blood, assim como Buffy e Twilight, soam como algo único. Portanto, apesar do que alguns podem pensar, True Blood está longe de ser uma descarada jogada comercial de fazer uma série que plageasse o maior sucesso de vendas atualmente, Twilight. Até porque esta é uma saga infanto-juvenil, enquanto a série de Alan Ball é imprópria para menores de idade, e baseada em uma série literária muito anterior a Twilight (a série Southern Vampire, de Charlaine Harris).

Vampiros e o sexo “dumal”

Este fator “impróprio-para-menores”, por sinal, é uma das características mais marcantes da série, pois é muito raro ver alguém que tenha tamanha liberdade em explorar o vampirismo como metáfora para obsessão sexual e seus perigos. Em True Blood, os vampiros são sexualmente insasciáveis, possuem o poder de hipnotizar uma pessoa com o olhar, seu sangue é um afrodisíaco se bebido por humanos, e são os melhores parceiros sexuais que há. Mordidas durante o sexo, inclusive, tornam a experiência mais intensa, deixando explíto a metáfora onde o beijo do vampiro, em si, é um ato sexual. No entanto, o vampiro que come alguém, figurativamente, é o vampiro que pode comer essa pessoa, literalmente. A metáfora sexual do vampiro, portanto, remete ao sexo auto-destrutivo, institivamente irresponsável.

Usar o vampirismo nesse sentido não é novo, e até mesmo Twilight, em toda sua inocência, metaforiza a erupção hormonal adolescente como um desejo de sangue. O vampiro passou a ser uma metáfora para o “parceiro sexual definitivo” uma vez que começou a ser abordado como um ser galante e conquistador. Não sei dizer quando isso aconteceu, mas Anne Rice tem uma grande parcela de responsabilidade na popularização desse modelo.

Respeite seus vampiros!

Mas usar o vampiro simplesmente nesse sentido seria desperdiçar seu potencial. Até hoje, vampiros já foram usados para representar a dominação burguesa (Drácula, Nosferatu), dependência química (Buffy, Angel), relação natureza vs. experiência com relação à moral (Buffy, Angel, Twilight, True Blood, Moonlight, Supernatural, etc. Qualquer ficção que tenha algum vampiro do bem), rebeldia sem-causa adolescente (Buffy, Garotos Perdidos), e de várias outras formas, mas eu não me recordo de ter visto uma metáfora que usasse os vampiros para representar discriminação social, e esse é outro ponto de brilhantismo de True Blood.

Existem até mesmo sites fictícios (como esse) , acompanhando a campanha para a inclusão social dos vampiros. Bill, o vampiro (não tão) bonzinho da história, possui um caráter ambíguo mas já provou sua vontade de ser socialmente aceito, de preservar uma humanidade que, técnicamente, ele não tem mais. Seu amor por Sookie, a mocinha da história, já se provou honesto e profundo, portanto o que o separa de um ser humano são fatores superficiais, fisiológicos. Ele não é o único assim, e o fato dos vampiros não terem sido oprimidos ou caçados ou exterminados prova que a população está, no mínimo, disposta a dar o privilégio da dúvida a eles.

É interessante que a série se passe em uma cidade do interior, no tipo de comunidade que geralmente representa o que há de pior na sociedade de um país. Alan Ball já provou saber explorar como poucos os demônios internos de um típico subúrbio americano, e mantém o nível ao explorar os de uma cidade interiorana. São pessoas de mente fechada, preconceituosas, apegadas à superstições e tradições nocivas. E que forma melhor de conhecer o quão podre essa pequena comunidade é, por dentro, do que ter uma telepata como protagonista? Sookie pode ler mentes, e o que ela enxerga dentro das pessoas que a rodeiam é sempre pior, mais mesquinho e arrogante do que se pode esperar. Sookie não pode ler a mente de vampiros, e esse “silêncio” mental é uma das coisas que a atrai em Bill.

É brilhante a abordagem do tema discriminação e preconceito uma vez que, no decorrer da temporada, foi ficando claro que esse tipo de atitude, em qualquer lugar, é hipócrita, já que aquele que julga e condena não é aquele que não tem podres, mas aquele que os esconde dos outros (mas não de Sookie). A série vai além e aborda também a consequência extrema da discriminação, que é o ódio racial, chegando ao ponto em que aqueles que são considerados predadores perigosos acabam virando presas dos que se sentiam ameaçados, isto é, humanos que abriram mão de sua humanidade.

Há ainda uma terceira metáfora na série, que é o da dependência química, mas não no sentido do vampiro ser viciado em sangue, mas em um humano tornando-se viciado no sangue de um vampiro, uma substância alucinógena, afrodisíaca, que cura, aguça os sentidos, mas pode debilitar uma pessoa também. Essa é a linha narrativa que Jason, irmão de Sookie, protagoniza. Ele é personagem mais irritantemente imbecil da série, apesar de muito bem construído. A dependência química de alguns humanos é outro caso onde os vampiros tornam-se vítimas de humanos desumanos.

Acredito que não seja necessário dizer que esta série transborda uma inspirada, complexa e bem abordada ambiguidade moral. Os outros temas abstratos que a série aborda brilhantemente (o da discriminação, dependência química, obsessão sexual, e diversos outros não mencionados, como fé, superstição, etc.) são acompanhados de uma grande riqueza psicológica, personagens interessantes e muito bem desenvolvidos com os quais senti uma imensa empatia, além de um excitante toque de terror sanguinário pesado, ação, mistério criminal e o mais importante, uma história romântica poética, proibida e intensa.

True Blood não só é brilhantemente bem sucedido em seus objetivos, como possui objetivos ousados e pretensiosos, no sentido psicológico, filosofico e criativo. Sempre digo que quanto mais alto se pretende voar, mais difícil ser eficiente. Nada mais satisfatório do que ver algo que consegue voar alto, onde pretendia, sem ao menos ameaçar cair. Acabou-se o tempo em que Buffy e Angel eram as duas únicas grandes séries de vampiros na história da TV.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.